O que é uma “família tradicional” ?


Nos últimos tempos temos visto a sociedade debater o que seria uma família e por qual tipo de pessoa ela deveria ser formada, sendo que muitos defendem a ideia da “família tradicional”, muitas vezes se referindo a esse termo como um costume do passado.

Mas o que é uma família tradicional?

Seriam as primeiras famílias estabelecidas no mundo? Isso seria no mínimo pitoresco, já que livros como A Origem da Família, Propriedade Privada e o Estado de Friedrich Engels afirmam que nos primórdios da humanidade os homens e as mulheres não estabeleciam relações de marido e esposa, não existia o conceito de casamento, nem a palavra pai, pois não se havia como determinar de quem eram os filhos.

As crianças eram responsabilidade de todos na tribo e isso era uma família para a época.

A família mudou com o tempo e então surgiu o casamento. Essa instituição que hoje vemos como a celebração do amor, foi muito utilizada como uma transação comercial durante séculos. Tal fato ocorria em diversas classes e em diferentes tipos de sociedade. A troca poderia ser por mais espaço para o arado, a garantia de que a jovem teria um teto para morar, pois a família não podia sustentá-la ou mesmo um país inteiro podia entrar nos acordos.

No passado ainda encontramos períodos em que era comum o casamento entre parentes , como por exemplo, a dinastia Habsburgos da Espanha, que tinha o hábito de casar tios e sobrinhas. Hoje veríamos isso como barbárie.

A forma como essas coisas evoluem varia muito de país e não acho que o os defensores da família tradicional estejam falando dessas formas de família. Podemos nos concentrar em épocas mais recentes do Brasil, algo entre meados do século XIX e boa parte do século XX, tempos em que a família ainda era dominada pelo universo patriarcal. Acho que é desse período em que esses grupos se espelham, além da bíblia, é claro.

Durante boa parte do século XIX ainda era costume que mulheres se casassem com quem seus pais dissessem e que vivessem trancadas em casa, pois não era de bom grado que o sexo feminino rodasse pelas ruas desacompanhadas, entretanto a troca de vantagens para o casamento começou a cair em desuso.

Mulheres desobedientes nesses períodos eram trancadas em conventos contra a sua vontade. Isso até o início do século XX quando começaram a ser internadas em hospícios. Esses enclausuramentos ocorriam sempre que homem-chefe da família (que tinha posses) queria se livrar da esposa.

O jogo começou a virar de forma mais rápida para a instituição da família com o avanço de leis que dessem mais autonomia a mulheres em relação aos seus maridos. O desenvolvimento do anticoncepcional foi um passo importante, mas o que mudou a instituição da família de verdade no Brasil foi quando na década de 1970 o divórcio passou a ser permitido no país. Antes disso, embora existisse o desquite, naqueles tempos o segundo casamento era proibido. Isso somado a inserção feminina no mercado de trabalho oficializou o sexo como algo a ser buscado em nome do prazer.

A maioria das legislações de proteção à família tem menos de 20 anos. A lei Maria da Penha tem apenas 9 anos em vigor e o debate sobre crimes envolvendo sexualidade, embora exista a décadas, só se tornou algo mais ativo e abrangente na nossa sociedade a menos de 5 anos com a chegada da Marcha das Vadias, um movimento social que visa debater a cultura do estupro, redes sociais e sites de jornalismo colaborativo que têm menos a perder e podem tirar o publico da zona de conforto.

Esses debates permitiram que mulheres pudessem levar mais a sério a busca do prazer sexual sem tanta culpa, como muitas gerações anteriores eram ensinadas a fazer. Isso quer dizer um fortalecimento na ideia de que ninguém deve ficar em um relacionamento que cause infelicidade. O interessante é que ainda assim o número de casamentos no Brasil cresceu 1,1%, enquanto o de separações diminuiu 4,9%, aparentemente a liberdade de trânsito não está enfraquecendo a instituição matrimonial. Essa pesquisa foi publicada em 2014 pelo IBGE.

Quando fazemos esse relatório histórico das instituições familiares a pergunta sobre o que seria a família tradicional se torna confusa, pois estamos falando de uma instituição que muda muito com o tempo.

Diante da história dos comportamentos familiares no ocidente ficam as perguntas: existe mesmo uma família tradicional? E o que torna o modelo homem, mulher e filhos algo que deva ser imperativo para a sociedade?

O que pode ser afirmado diante dos fatos estabelecidos aqui é que o passado não deve se celebrado de forma alguma. A família é uma instituição que deve olhar somente para o futuro.

Sobre Cicero Sena (174 artigos)
Jornalista, criador de conteúdo e estranhamente humano (eu acho).

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